Saiu no Imprensa Livre – 05/11/2011

QUE MARAVILHA!

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
(“No Caminho, com Maiakóvski”, Eduardo Alves da Costa)

Odair Bruzos          Enquanto os Estados Unidos, Israel e seus aliados na ONU, diante da tentativa de ingresso da Palestina, tentam convencer-nos de que o ar é sólido, a UNESCO autoriza o ingresso da Palestina nesse órgão máximo da Educação.  Inconformados com essa decisão, Israel e os Estados Unidos cancelaram suas subvenções à UNESCO.  Não soube de nenhuma manifestação popular (fora do mundo árabe) contra o comportamento, na ONU e na UNESCO, do Tio Sam e de seus amigos.

Todos querem posar de politicamente corretos.  E nada é mais politicamente correto do que posar de defensor da Democracia.  Na última semana, porém, parece que isso não valia.  O governo grego, para receber ajuda externa, foi intimado a tomar aquelas famosas medidas ditadas pela cartilha do FMI, pela comunidade financeira, pelo catecismo do capitalismo (aquele que não quer parecer selvagem).  O governo anuncia, então, um referendo popular.  Resultado: o FMI e os líderes das maiores potências mundiais ficaram indignados com o recurso à consulta popular.  Pergunto: existe algum mecanismo mais democrático, do que o referendo?  Eu já escrevi sobre as imperfeições da Democracia, sobre os perigos da opinião pública; eu até poderia discordar dessa consulta.  Esses “líderes”, porém, que vivem pregando a Democracia plena na terra dos outros, como podem ser contrários à consulta popular?  Não soube de nenhuma manifestação popular (fora da Grécia) contra esse comportamento.

Com profunda tristeza, vi crianças fantasiadas para o “Dia das Bruxas” (em bom português: “Halloween”).  O folclore brasileiro é riquíssimo, não havendo nenhuma necessidade de importarmos tradições alienígenas.  Já não bastasse a rica tradição caipira estar sendo substituída por esse tal de “country”, somos agora atacados por mais um triste espetáculo…  Importarmos tecnologia dos Estados Unidos, tudo bem; mas precisamos importar essa coisa de dia das bruxas?  O mais triste é que são educadores os que introduzem isso nas mentes de nossas crianças.  Em vez de criarem seres orgulhosos pela sua Cultura, engendram uma massa que se assume colono subserviente e servil, dependente da “Metrópole”.  Já se chegou a argumentar que esse fenômeno é consequência da globalização.  Se for assim, alerto para a riqueza do folclore de nações bem mais próximas de nós, geográfica ou historicamente, como Peru, Bolívia, Argentina, Portugal, Espanha, Itália.  Tenho certeza de que esses educadores agiram com boa intenção.  Mas onde estavam os pais, para dizerem “não”?  Mais uma vez, nehuma manifestação contrária…

Tudo isso é muito triste…


Saiu no Imprensa Livre – 27/10/2011

COMO OS PAIS DOS PAIS DOS PAIS DOS PAIS…DOS NOSSOS PAIS


Odair BruzosEm recentes editoriais, o “Imprensa Livre” destacou, com muita propriedade, a necessidade do efetivo estabelecimento do Brasil como Estado laico. Em outras palavras, frisou que a religião deve ser respeitada, mas não como principal guia, personagem ou professora dos rumos do país.
Diante, porém, da História e da configuração atual do mundo, vejo que estamos muito longe do ideal traçado pelos citados editoriais…
A maior contribuição de Karl Marx à Filosofia foi o materialismo histórico, segundo o qual não são as idéias que geram os fatos, mas sim as relações concretas entre forças (como o capital e o trabalho) que engendram as idéias. Embora essa visão seja plenamente científica, na prática da vida diária vemos que as coisas funcionam de outra maneira…
Imagine a população do Egito, cerca de quatro mil anos atrás, acreditando piamente que o faraó era um deus. Muitos de nós chegamos a dar risadas da ingenuidade daquele povo, não é mesmo?
Mas e hoje? A quase totalidade da humanidade ainda acredita em outros deuses. E os que acreditam no deus A chegam a dar risadas da ingenuidade dos que acreditam no deus B (e vice-versa). Mudou alguma coisa nestes quatro milênios?
De fato, basta abrirmos um jornal para constatarmos que guerras, genocídios, exclusões, intolerâncias ainda infestam nosso mundo, em grande parte tendo por motor a Religião.
Mas as crenças não se restringem ao campo religioso. A fé cega em algo que nos é dado de cima para baixo continua forte, e em vários outros setores da vida diária.
Professores e instituições de ensino, por exemplo, são julgados de acordo com os trabalhos publicados em revistas científicas. Quase ninguém questiona esse sistema (chamado de meritocracia pelos setores conservadores). Mas será que um professor que, no único trabalho publicado, revoluciona a Ciência, vale menos do que um burocrata que “produz” um artigo irrelevante por bimestre? E o que dizer de um mestre que, embora nada publique, beire a perfeição na transmissão de conhecimento aos seus alunos?
Talvez o maior deus de hoje em dia se chame Estatística. Num município onde ocorreu um crime no ano x, ocorrem, no ano seguinte, dois delitos. Resultado: a população se amedronta, diante dos 100% de aumento na criminalidade. Essa insegurança, porém, está para a realidade, assim como o indivíduo que nunca comeu frango está para os 50% da citada ave que lhe deveriam caber (lembrando aquela história: num país com dois habitantes – A e B – o primeiro come um frango, enquanto o segundo chupa o dedo; estatisticamente, cada habitante comeu meio frango…).
E o que dizer daquela dúzia de homens que decidem, como num campeonato de beleza, sem quase nenhum critério realmente objetivo, que o país D tem nota 7, o F tem nota 5,89, enquanto o G tem nota 9,8? Aliás, o que dizer da humanidade em geral, que dá tanta importância a essas notas? Em razão delas, surgem bancarrotas, desemprego, exclusões, guerras.
Mudamos algo nestes últimos quatro mil anos?


Saiu no Imprensa Livre – 22/10/2011

POR QUE HOJE AINDA NÃO É FERIADO?

Odair BruzosPedindo desculpas pela piada batida do título, no dia 22 de outubro de 1961, eu respirei pela primeira vez.  O susto que levei naquela ocasião continuou pelo tempo, ganhando outro nome: assombro.  Foi assim quando, nos meus sete anos, vi e toquei num prelo…  Fiquei totalmente assombrado com aquela máquina cheia de letras de chumbo, o cheiro ao mesmo tempo discreto e marcante da tinta, o som da impressão do cartão de visita, o cartão pronto, com seu texto brilhando só um pouco menos do que meus olhos.
Também foi um assombro quando ganhei a primeira edição (1975) do Almanaque Abril.  Eu não conseguia acreditar que era possível caber tanto conhecimento em um único volume.  Naquela noite, dormi com o livro ao lado do meu travesseiro.
Foram e ainda são muitos os momentos em que sinto um verdadeiro assombro pelas pessoas e coisas que me cercam.  Fico maravilhado com o nascer do Sol, com o olhar desconfiadamente camarada de um cachorro de rua, com o cheiro das primeiras gotas da chuva, com o silêncio que fica, depois que a chuva parou, perfumado apenas pelas gotas suicidas que se jogam dos beirais.
Platão dizia que a Filosofia começa no assombro; que o primeiro passo para o conhecimento é a capacidade de se maravilhar, de se assombrar.  Se for assim, já devo ter nascido filósofo.  Se for assim, espero morrer filósofo…
Cinqüenta anos…  É muito tempo!
Vivi tantas coisas…  Vivi tanto algumas coisas…  Em algumas, eu concretei alicerces.  Em outras, só acampei.  Em outras, ainda, passei por perto, espiei, espiei, fiz que ia, voltei…
A galeria das pessoas que conheci mais parece uma alameda infinita, com rosas, flores, carvalhos e bambus nas margens.  Aparecem também urtigas, até plantas venenosas, mas sem estas a alameda não seria a minha Alameda.  Bem no começo, uma rosa maravilhosa chamada minha Mãe.  Ela já foi transplantada para os jardins do Céu.  Mesmo assim, quando mexem nas suas raízes, as minhas também se mexem.  Logo depois, um carvalho todo austero, mas que, no fundo, tem um coração que é todo Amor.  É meu Pai.  Um pouco adiante, minha irmã, uma outra rosa, cujo nascimento eu esperei ansioso.
De repente, surge a planta mais bonita e perfumada, cujas raízes estão misturadas com as minhas; ao seu lado, três jovens árvores, nascidas do enxerto dos nossos corações.  Seguindo pela alameda, são tantos os parentes e amigos, tantos perfumes…
Não posso mentir nem negar: vivi muito; vivi intensamente; vivi exageradamente.  Utrapassei limites, embaralhei fronteiras; fiz cara de mau, fiz olhar de cachorro “pidão”.
Tentei acertar sempre.  Acertei, às vezes.  Errei muito.  Errei fazendo, errei deixando de fazer.  Mas nunca quis errar…
Voltando à Filosofia: aos cinquenta anos, é possível enxergar lógica na Vida?  Se nascer é a tese, se a morte é a antítese, a síntese disso tudo só pode ser viver intensamente cada instante.  Se for assim, vejo lógica na minha Vida, sim.  Aliás, como diz a música, “começaria tudo, outra vez”…  Vejo os erros e os acertos como sendo o que poderia ter sido feito…ou deixado de lado.  Sinto que vivi a Vida que podia ter sido vivida por mim.  Nem mais, nem menos.  E levo agora comigo tudo o que vivi…  Materialmente, poderia dizer que estou no momento mais grave da minha Vida.  Em compensação, espiritualmente, estou no mais sublime.  Isso me faz constatar como é vã qualquer preocupação sobre meu futuro: cem anos ou sem nem mais um dia depois dos cinqüenta…o que isso importa para o meu verdadeiro e imortal Eu?
Como dizia o líder “Sioux” Cavalo Louco (“Crazy Horse”), “hoje é um bom dia para morrer, porque todas as coisas de minha vida estão presentes”.
Mas também é um bom dia para nascer de novo, para olhar – maravilhosamente assombrado – para a Vida que pulsa neste momento.  E tocá-la…E agarrá-la…  E brincar com ela, rolando sobre nuvens e gramados, voando num tapete feito com pontos de exclamação e de interrogação.  Até que ela, numa demonstração de que tudo (o acerto e o erro, a paixão e o ódio, o encontro e o adeus, a piada e o elogio) é fugaz, exploda como bolha de sabão…
É tudo tão maravilhoso!