Saiu no Imprensa Livre – 20/10/2011

REINVENTANDO A RODA

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu. (“Roda Viva”, Chico Buarque)

Odair BruzosNestes últimos meses, às vésperas dos meus cinqüenta anos, venho passando por alguns terremotos na minha paz.  Numa fuga ilusória desses tremores do meu chão, retrocedi em várias caminhadas que vinha trilhando há três anos.  Pior do que o retorno ao cigarro, à bebida e à obesidade, porém, é a nítida sensação de que levei um tapão, um tapa daquele tipo que só deixa tontura, fragilidade, falta de sentido em seu rastro.  Mas o pior de tudo, mesmo, é descobrir que quem deu o tapa fui eu…
Muitos que me viram recaído demonstraram desaprovação.  Muitos deixaram transparecer, olhando de cima para baixo, o que pensavam: “você recaiu, é fraco; eu continuo sem fumar, sou forte”.  Outros como que diziam: “você contou prosa ao emagrecer, mas agora voltou a ficar gordo como eu”.  Alguns poucos demonstraram compaixão pelas minhas quedas.  Praticamente ninguém se preocupou em saber o que me levara a elas.  Ninguém me perguntou se poderia ajudar-me a levantar…
Mas uma coisa essas pessoas me ensinaram: a dor é um caminho solitário.  Na verdade, nem é um caminho: é uma encruzilhada com infinitas entradas.  E a cada trilha escolhida, descobrimos que ela termina na mesma encruzilhada de antes.  Já se disse que o significado de “inferno” é “sem saída”.  E Dante já imortalizou o aviso aos que entram nesse caminho sem saída: percam a esperança!
Está tudo perdido, então?  Tudo se resume a um desespero sem saída?
Já escrevi sobre algumas figuras dos primórdios do Cristianismo, as quais, quando recolhidas aos calabouços da intolerância, com data próxima para a execução, em vez de choro e ranger de dentes, pregavam a boa nova aos companheiros de prisão.  Em razão dessa coragem sem adjetivo possível, muitos se converteram a Cristo, inclusive seus carcereiros.
Também escrevi sobre São Francisco, o qual, diante do ferro em brasa que iria cegá-lo, dirigiu-se ao Irmão Fogo com ternura.
Misturando todos os parágrafos anteriores, constato que a História dá a fórmula para os momentos graves da Vida: viver o agora.  Sim, eu sei: sempre acabo no “viver o agora”.  Mas é o exemplo de grandes homens e mulheres que me leva a isso.
Se os primeiros cristãos se fixassem nas dores vindouras, já morreriam de antemão.  Se Francisco se concentrasse na dor e na cegueira, seu coração escureceria na véspera.
Um ponto muito importante: entendi que é imprescindível viver “o” agora, não “no” agora.  Quem vive “no” agora, está simplesmente num instante entre o passado e o futuro, sendo estes os verdadeiros monarcas.  Quem vive “o” agora, torna-se rei da sua eternidade.  De fato, sinto que a eternidade não é uma linha horizontal traçada do passado em direção ao futuro.  A Eternidade é uma linha vertical, que se aprofunda cada vez mais no presente.
Quando este texto for publicado, espero estar deixando o Vale das Recaídas.  Mais do que isso, porém, espero estar vivenciando o agora o mais profundamente possível.  Isso implica em me perdoar pelo tapão que dei em mim; em agir para curar as feridas que causei, aceitando as cicatrizes que ficarem; em agir para não mais ferir.
Aliás, não espero nada…  Estou vivendo o agora.  Sou o agora.  Eu sou!
Quem é a Eternidade, não precisa de nenhuma fuga.
Como eu gostaria de conseguir dizer:
- Irmão Cigarro, eu busquei você de novo, e você me atendeu com a gentileza de sempre.  Agora, porém, eu preciso seguir sozinho.
Sozinho, não: comigo…


Saiu no Imprensa Livre – 18/10/2011

O TEMPO NEM PASSA, NEM VOA: PISCA

Odair BruzosO momento de emoção mais forte na minha vida, até hoje, ocorreu quando eu recebi a notícia da morte de minha Mãe.  O segundo foi no sábado retrasado, quando minha filha mais velha se casou.
Foi muita confusão na minha cabeça, no meu coração…
Até a chegada no altar, tudo estava bem, sob controle.
Aí, então, na hora em que ela foi com o noivo para a frente do padre…aí os meus sentimentos começaram a sair dos trilhos.
Já freqüentei muito a Igreja do Bairro, mas nunca tinha reparado tanto na beleza do seu teto.  As lágrimas começaram a perambular pelos meus olhos, sendo que a única maneira de tentar represá-las consistia em usar a lei da gravidade: levantei a cabeça o mais que pude…levantei…levantei…  Mesmo assim, porém, o aguaceiro escorreu pelo meu rosto…
Como nunca morri, não sei se é verdade que, na hora extrema, toda a nossa vida passa num filme pelos nossos olhos.  Mas nesse sábado, em alguns minutos, vi como num filme todos os momentos que vivi com a minha filha.
Em casa, na escola, na praia, nos passeios, percorrendo suas várias idades, lá estava ela me pedindo colo, lá estava ela ouvindo as historinhas que eu lia, lá estava ela…
Num momento, em pleno altar, tomei um susto, quase levando a mão direita a amparar o vazio a minha frente.  É que me lembrei de um dia – mais de vinte anos atrás – que eu precisei ser rápido para evitar que ela caísse de um banco.
Em pleno altar, eu sabia que aquele casamento era o caminhar natural da Vida, que o noivo era uma boa pessoa, que ela estava feliz.  Sim, eu sentia uma felicidade por tudo isso.  Mas também sentia uma tristeza de velório – velório de defunto vivo, mas mesmo assim velório…
Na hora em que fui abraçá-la, a minha vontade foi a de pegá-la no colo e sair correndo em busca de uma boa historinha para ler…e esperar pelo seu olhar de curiosidade, pelo seu sorriso, pelo seu “conta mais uma”.  Mas eu não fiz isso…
Sei que eles estão e serão felizes.
E também sei que ela sabe que, se perder o equilíbrio nos banquinhos da vida, minhas mãos sempre vão estar de prontidão.
Foi um dia de felicidade, é claro.
Mas que doeu, doeu…doeu muito…

X – x –x – x- x – x –x

P.S. – A Dona Marina, de Boiçucanga, foi para o Céu.  Era uma pessoa maravilhosa, maravilhosa de verdade, com quem tive a felicidade de conviver.  Que seus parentes e amigos encontrem forças para a superação deste momento de dor.  E que a Dona Marina encontre a suprema Paz!