Saiu no Imprensa Livre – 27/10/2011

COMO OS PAIS DOS PAIS DOS PAIS DOS PAIS…DOS NOSSOS PAIS


Odair BruzosEm recentes editoriais, o “Imprensa Livre” destacou, com muita propriedade, a necessidade do efetivo estabelecimento do Brasil como Estado laico. Em outras palavras, frisou que a religião deve ser respeitada, mas não como principal guia, personagem ou professora dos rumos do país.
Diante, porém, da História e da configuração atual do mundo, vejo que estamos muito longe do ideal traçado pelos citados editoriais…
A maior contribuição de Karl Marx à Filosofia foi o materialismo histórico, segundo o qual não são as idéias que geram os fatos, mas sim as relações concretas entre forças (como o capital e o trabalho) que engendram as idéias. Embora essa visão seja plenamente científica, na prática da vida diária vemos que as coisas funcionam de outra maneira…
Imagine a população do Egito, cerca de quatro mil anos atrás, acreditando piamente que o faraó era um deus. Muitos de nós chegamos a dar risadas da ingenuidade daquele povo, não é mesmo?
Mas e hoje? A quase totalidade da humanidade ainda acredita em outros deuses. E os que acreditam no deus A chegam a dar risadas da ingenuidade dos que acreditam no deus B (e vice-versa). Mudou alguma coisa nestes quatro milênios?
De fato, basta abrirmos um jornal para constatarmos que guerras, genocídios, exclusões, intolerâncias ainda infestam nosso mundo, em grande parte tendo por motor a Religião.
Mas as crenças não se restringem ao campo religioso. A fé cega em algo que nos é dado de cima para baixo continua forte, e em vários outros setores da vida diária.
Professores e instituições de ensino, por exemplo, são julgados de acordo com os trabalhos publicados em revistas científicas. Quase ninguém questiona esse sistema (chamado de meritocracia pelos setores conservadores). Mas será que um professor que, no único trabalho publicado, revoluciona a Ciência, vale menos do que um burocrata que “produz” um artigo irrelevante por bimestre? E o que dizer de um mestre que, embora nada publique, beire a perfeição na transmissão de conhecimento aos seus alunos?
Talvez o maior deus de hoje em dia se chame Estatística. Num município onde ocorreu um crime no ano x, ocorrem, no ano seguinte, dois delitos. Resultado: a população se amedronta, diante dos 100% de aumento na criminalidade. Essa insegurança, porém, está para a realidade, assim como o indivíduo que nunca comeu frango está para os 50% da citada ave que lhe deveriam caber (lembrando aquela história: num país com dois habitantes – A e B – o primeiro come um frango, enquanto o segundo chupa o dedo; estatisticamente, cada habitante comeu meio frango…).
E o que dizer daquela dúzia de homens que decidem, como num campeonato de beleza, sem quase nenhum critério realmente objetivo, que o país D tem nota 7, o F tem nota 5,89, enquanto o G tem nota 9,8? Aliás, o que dizer da humanidade em geral, que dá tanta importância a essas notas? Em razão delas, surgem bancarrotas, desemprego, exclusões, guerras.
Mudamos algo nestes últimos quatro mil anos?


UMA NOITE…


Odair BruzosToca uma música.
A noite é fria.
O ar é quente.
Copos cheios, vazios, cheios, vazios…
Corações…

Toca outra música.
A dança é fria.
Os sons são quentes.
Rostos maquiados, já com trilhas de suor…
Corações…

Tocam mais e mais músicas.
A conversa é fria.
As risadas são nervosamente quentes.
Elogios baratos…
Corações…

A balada chega ao fim…
A noite é fria.
As vozes morrem.
Carros ligados.
Corações frios voltam,
Calados,
Para casas
Frias.


Escrito em 25/07/1981. Republicado com pequenas alterações.


A ARTE DE CONTAR ONDAS


Odair BruzosEm 1989 ou nos anos noventa, o texto abaixo (que já passou por várias alterações) foi inscrito por mim no concurso de poesias Nhô Bento, de São Sebastião.  Não recebi nenhum prêmio…  Já o publiquei no Imprensa Livre umas duas vezes, uma delas numa edição especial sobre o anversário de São Sebastião.  Como dise, eu já o alterei muito.  Se encontrar a versão original, eu a publicarei aqui.
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Onde já sei viu?
Criança contando onda!
Como se o mar muito se importasse…

Eu, com minha maleta, engravatado,
Vou cumprir mais um dia de homem sério, carrancudo.
Paro meu carro, ligo o alarme, entro no prédio.

Papéis, papéis, papéis;
Tique-taque, tique-taque, tique-taque.
Bom dia!  Boa tarde!  Boa Noite!

Noite, tarde, dia.
Tudo vai passando.
E como passa depressa…

Ou eu passo com pressa por tudo.
Ou por nada…

Mais um dia, mais um mês, mais um ano.
Mas que nada!

Muitos anos passei sem ser, sem estar, sem sentir.
Muitos anos passei perdido, de carro nos pés, fumaça no nariz, cifrão no peito.
Muitos anos sequer fui, sequer estive…só passei.
Só um, só mais um…

Até que um dia me lembrei: “eu também já fui criança!”
E era feliz.

De repente, fiquei confuso:
Não sabia se eu era um adulto que já foi criança,
Ou se era uma criança que envelheceu.

Parei o carro, larguei a gravata, o relógio e o celular.
Entrei na areia, pisei o Mar.
Uma onda…duas ondas…três ondas…
O Mar sorriu para mim, feito uma criança.
E eu, assustadoramente desengonçado por falta de prática,
Também sorri.